acordei agora.
lento. muito lento.
os braços cansado.
a boca cerrada ainda tensa.
a vista semi-cerrada.
os dedos escrevem lento.
a cabeça a recordar o pormenor.
acordava e revirava-me na cama.
estava de braços torcidos para a frente.
a respiração ofegante. chegava a roncar.
adormeci lento...
recordo-me de tudo.
estava marcada uma sentença de morte de um homem.
eu fui assistir.
não havia pena de morte.
mas não era preciso haver. ele morre na cadeia por maus tratos.
era assim a pena de morte.
adormecida nos calabouços, com acordares repentinos e horríveis.
saí da prisão e estou numa tenda a escrever
"the man falled in the pit of Life" algo assim. Com uma lapiseira que estava no bolso do peito do homem que ia morrendo, amarrado ao fundo de um corrimão de madeira esculpida, ao fundo da escadaria dos calabouços da prisão.
havia uma ida ao cinema.
marcada com a minha mãe e irmã.
alguém comprava bilhetes com dias de antecedência.
ao chegar ao gigantesco centro comercial fomos jantar.
fomos então para a sala de cinema, nos confins dos últimos andares.
estava cansado. centenas de milhares de pessoas.
chão colorido alcatifado. luzes. parecia um espectaculo da broadway.
luzes, cores. uma azafama de gente normalizada. risos, choros, conversas. conversas de família, de amigos e de namorados, entre amigas.
perco-me da minha mãe e irmã. ah a minha sobrinha também vai. é bem mais nova do que é na actualidade.
reparo que as vejo à entrada da monstruosa sala de cinema.
são várias salas. é um centro comercial.
escadas rolantes até ao céu.
torre de babel.
alguém me passou o meu bilhete para as mãos. antes.
filas de gente para entrar.
eu vou aos wc's.
entro na primeira porta de acesso aos wc's
um imenso corredor curvo segue para a direita e esquerda.
em frente diz "wc crianças meninas".
as paredes e portas em frente à porta por onde entrei são em metal fosco, mas brilhante. o resto do chão é tijoleira escura... parece que há uma gradação de um espaço no outro... o espaço dos corredores do cinema, para o dos corredores dos wc's...
do "wc das crianças meninas" sai alguém, um homem com um ar super natural. e logo entra outro. não, não se trata de pedofília ou cena prevertida de wc de centro comercial.
é muita gente a ir às casas-de-banho e as crianças vão acompanhadas dos pais, mas são raras estas situações, e então os adultos aproveitam o acesso mais rápido a estes wc's.
mas eu penso para mim "não vou a estas casas de banho... se entra alguém vou ficar mal visto, vai parecer mal para a criança. não vou querer confundir ninguém. as casas de banho são para os miúdos. preciso respeitar os seus espaços. é importante que eu respeite os seus espaços." e os espaços são sagrados para mim, sobretudo não sendo "meus".
as portas têm daquelas janelas redondas. e não passa luz por elas.
continuo para a esquerda e uns bons largos passos mais à frente são as casas de banho para crianças meninos. sem actividade por serem demasiado longe.
regresso para trás. subo umas escadas.
em frente são os wc's para adultos: senhores. não se entrava para um compartimento fechado.
era o que procurava.
urinois urinados. à altura da minha cabeça... estava um homem a urinar enquanto subia as escadas. acabou. só podia ser gigante para poder urinar àquela altura.
urinois à esquerda e um fileira de lavatórios separava e deva privacidade a quem urinasse. o corredor da casa de banho seguia do lado direito do corredor das casas de banho.
acabei por não urinar... perdi a vontade... não que o aspecto fosse nojento. não. tudo estava aparente limpo. mas o aluminio notava-se manchado e molhado de urina.
não cheirava mal. pois o chão era sempre limpo. havia também aromatizadores de espaço. mas o espaço não cheirava a nada.
segui para a minha sala de cinema
corredores longos deviam levar-me à maior sala de cinema do mundo.
os gongos de entrada já tinham dado há uns minutos.
estou sozinho pelos corredores.
dou um salto e na queda começo a voar.
rapidamente percorro metros e metros de corredor em tons rosa e outras cores calmas...
todo o cinema tem cores preduminantemente rosa. parece um jardim de calmaria aparente.
cheira obviamente a pipocas e cola de alcatifa...
e tudo tem sempre aparência de novo. sem o ser. há um desgaste dos materiais que é controlado sem saber como é.
eu por certo não vou desgastar nada.
voo suave pelos corredores.
diverte-me este voo.
sinto-me mto bem.
rodopio.
é como se estivesse nos braços de uma mulher. a fazer amor. sentados um sobre o outro. frente a frente. pernas abertas. encaixados. olhos-nos-olhos. as mãos passam pelas costas. abraçam-se. beijam-se. aproximam-se. eu e esta mulher incógnita. bonita, suave, cabelo loiro semi ondulado natural.
gozam suave pelos corredores.
chego perto da minha sala.
é um átrio especial de acesso à sala.
tenho q descer umas escadas.
à direita e à esquerda. há escadas.
ao centro uma estranha escultura em fibra de vidro e um orifício em elipse... parece uma vulva.
proibidíssimo passa por ali, mas eu ouso e acedo ao piso inferior por aí mesmo.
desço em voo. agarrando-me às paredes da vulva. desço em elegância.
entro de cabeça. coloco as mãos à frente para me agarrar. dou uma cabalhota. um pé primeiro toca no chão, o outro a seguir. liberto uma mão da vulva, em seguida liberto a outra.
as meninas das portas da sala reparam e dizem-me que não posso fazer aquilo.
sorrio e peço desculpa pela minha ousadia.
empatizam comigo. é pela simpatia e carinho imposto nas minhas palavras.
uma delas entra na sala.
a outra aguarda que eu me chegue perto dela para entrarmos na sala.
as portas largas.
o filme já começou há algum tempo.
sobe-se uma rampa de acesso à sala.
a menina segue à minha frente.
o meu andar é tão leve que os meus pés levantam voo novamente.
fico planar no ar.
a menina olha para mim e olha rapidamente para a frente como que embaraçada.
mas eu mantenho-me a pairar.
quando chegamos ao fim da rampa ela volta a olhar e sussurra "baixa! desce! pára com isso", num tom doce, candido até, tocando-me nos pés para me fazer acentar os pés no chão.
a mulher que me diz isto é uma loira; cabelo semi-ondulado... pele esbranquiçada... rosto esguio elegante. linda mulher. formas femininas.
a sala é assombrosa.
cadeirões com estofos em couro.
estamos bem cá em cima.
deve ter 10.000 lugares.
tem plataformas vip em colunas de madeira. avisto a minha irmã, sobrinha e a minha mãe.
estão nuns lugares horríveis.
o filme já tinha começado há muito.
era algo que eu já tinha visto. um bom filme.
ficava lá mesmo em baixo. a sala gigante. um pé direito aberrante.
como os lugares não estavam todos ocupados estava na hora das pessoas se movimentarem para arranjarem lugares melhores.
eu falei para elas se dirigirem para sitios melhores.
a minha irmã tinha uma coluna das tais plataformas vips bem à frente dela. era chamado o lugar morto. eu digo-lhe "vai para outro sítio que daí não vais ver nada"
elas separam-se, mas sinto que não há problema neste afastamento.
eu vou procurar o meu lugar.
há muitas pessoas a venderem coisas pelos corredores.
parece uma feira. melhor um circo autentico
encontro vários possíveis.
um ao lado de um casal com uma menina que não deve ter mais do que 5 anos.
o pai ao lado da filha. a mãe no lugar atrás. pergunto se o lugar ao lado da filha está disponível ao que me respondem: "não, não está. escolha outro." ficaram com medo que fizesse mal à menina.
outros por ali, mais abaixo estavam livres.
mas não me satisfaziam.
desci uma escadaria enorme.
uma outra menina da sala diz-me para descer bem lá para baixo.
entro numa fila central e sento ao dentro de um cadillac aplicado a meio da sala.
as cadeiras aqui são todas almofadadas. já não são em couro.
mas curiosamente, os melhores lugares de uma sala são estes mais centrais. vulgarizou-se q os melhores são os últimos...
patetice.
sentei-me ao lado de um bebé.
meti o cinto de segurança e fiquei ali com o menino.
estava sozinho. estranhamente sozinho.
alguém o vigiava na fila anterior.
comecei numa conversa infantil com o bebé. nada de mais.
o carro a dada altura começa a mexer-se.
eu faço mais piroetas.
e o carro fica em desiquilibrio.
reparo que a proxima fila de lugares fica a uma distância enorme.
e abaixo do cadillac ficam sucalcos de uma especie de terrenos baldios da sala gigante.
subitamente o cadillac começa a cair.
só me lembro do bebé.
começamos a cair e eu tento controlar o embate.
a sensação é terrível.
o primeiro sucalco fica longe. é uma altura tenebrosa.
o chão chega devagar e o embate é pesado.
o carro não se desfaz e seguimos para o sucalco seguinte. arrebentamos umas estranhas barreiras de segurança.
descemos pela sala abaixo.
arrebentamos com lugares vazios. cadeirões de sala de cinema saltam à nossa frente.
o bebé ri e diverte-se.
eu estou com medo.
ao descer o medo desaparece por causa do riso do bebé.
chegamos até à tela de projecção.
e prosseguimos.
esticamos a tela. a imagem nela projecta vai-se deformando.
eu olho para trás e a colossal sala de cinema olha para a tela com medo e paixão expressos nas faces.
estamos vivos.
a tela estica. estica. estica.
a imagem deforma cada vez mais.
um estouro enorme desfaz a tela.
e entramos numa sala escura.
mas o que fica além da tela?
o carro parece vivo. e a nossa queda é livre.
arrebentamos com a parede do fundo.
estranhamente caímos no meio de filas de cadeiras.
olho para o bebé para ver como ele está.
bem. está bem.
olho para a frente. e afinal o que estava em queda era a sala de cinema dentro do avião que nos transportava...
o avião caía.
batemos no chão.
agora era o impacto.
já tinha saído do cadillac e estava de pé na fila de cadeiras.
o embate do avião no chão faz-me bater com as costas sobre as costas almofadadas do cadeirão.
mas este era o primeiro embate.
milhares de filas de cadeiras com pessoas estavam a sofrer o embate.
agora iamos todos sofre o embate das cadeiras em queda.
pego no bebé e encosto-o no meu peito. ele enrosca-se.
eu sei que se não subir para cima da cadeira à minha frente ficarei com as pernas amputadas.
subimos para a cadeira.
aguardamos o 2º embate.
um mar de cadeiras ordenadas desce...
confio que o embate vai ser amortecido por uma enorme parede almofadada.
tudo é esmagado contra esta parede. eu só penso quando é que chega o limite de contenção da espuma.
sinto o peso das cadeiras e sussurrando digo ao bebé: "vai ficar tudo bem. vai ficar tudo bem. vai ficar tudo bem"
o bebé relaxa no meu colo. é uma sensação de conforto mutúo.
não há dor, apesar da destruição.
de repente o caos pára.
inspectores rapidamente entram no avião e tiram-me uma lapiseira da mão: "nós ficamos com isto. obrigado"
eu viro-me e digo que temos que repetir toda a cena de novo pois não pode ser assim...
estou no cadillac com o bebé.
depois da queda as cadeiras vão fazer o 2º embate.
o bebé ao meu colo está nervoso.
estou com medo de perder o bebé ali no meio das cadeiras e de toda a confusão.
começamos a ser esmagados contra a parede almofadada.
alguma dor aparece desta vez.
mas sei que o bebé está protegido comigo.
ele está bem.
vestido apenas com fralda.
está nervoso e aquecido pelo meu calor.
o caótico embate amortece finalmente.
os inspectores entram e tiram-me a caneta do bolso da camisa.
e eu berro: "não pode ser assim. já disse que não pode ser assim porque essa caneta era do meu pai..."
a vida volta ao normal.
volto várias vezes ao lugar onde o avião caiu.
faço a minha vida normal.
vou dar aulas.
volto ao lugar onde caiu o avião.
de uma das vezes volto com a minha madrinha.
aproximo-me de uma superfície de madeira.
uns tubos de secção quadrada, pintados de vermelho, apontados para o ar... na extremidade uma rodas de borracha...
deviam ser uns carrinhos ou prateleiras de transporte, que o avião levava, e estavam ali empilhadas umas nas outras, superfície com superfície.
algo aconteceu porque me deu uma vontade louca de chorar.
deito meio corpo sobre uma das prateleiras e começo a soltar um gemido ensordecedor que se vai misturando com o som do rasgar de um avião a jacto a entrar na atmosfera.
o som vem de dentro de mim.
não passa nenhum avião.
é ensordecedor.
e a potência do som faz levantar um vento fortíssimo.
como se eu tivesse engolido uma turbina de uma avião.
a minha madrinha tranquila, no meio daquela ventania: "não sei porque não deixas soltar o choro".
banho-me em lágrimas.
é um rio de lágrimas a ensoparem-me a cara e a tal superfície de madeira gasta.
vou acordando a gemer de igual forma que no sonho.
só que sem chorar
o gemido traduz-se dpois numa respiração ofegande e, consquentemente num roncar ensordecedor.
sinto os meus braços torcidos entre eles.
e o meu corpo sobre os meus braços a prendê-los.
rebolo-me para a direita. abro os braços. acalmo. e sinto o conforto do bebé ainda no meu peito.
recordo-me lentamente de tudo.
ouço os melros lá de fora. e na escuridão por estar com os olhos fechados aparecem jardins.
devagar, preparo-me para escrever este sonho...
1 comentário:
acarinha mto este bebé q te contém.... está a pedir tua atenção, espera teu afago, teu calor... só tu podes acalentá-lo e dar-lhe aconchego... é disto que se trata, é disto que precisas, espero que te presenteies a ti com este afecto puro, sem mácula, integro e integral....
de quem te quer bem e te espera um dia ter o privilégio de te abraçar assim como deves abraçar este bebé...
com um amor desmedido,
Ana
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