PARTE 1
há dias que não saio desta melancolia, deste peso ao acordar...
há meses que este sentimento estalou aqui na terra.
há anos que atravesso esta terra.
há tanto quanto o tempo em que a sensibilidade criativa se sente anulada?
e como me sinto?
a vaguear por esta terra árida, quente...
a luz resplandece de uma maneira agressiva. o sol raia e trespassa a pele já seca. o vento também seco ajuda a desidratar.
os lábios gretados oferecem à lingua os grânulos de areia depositados nas suas fendas.
olha-se em frente e uma névoa densa de areias no ar é o único que se consegue vislumbrar.
não há ninguém a parar todos andam em frente, seja lá o que signifique "andar em frente". andam em qualquer sentido mas, sempre no sentido posterior.
ninguém pára.
eu não vejo ninguém a parar.
bom, vejo alguém que vai parando mas, logo continua. os estragos poderiam ser maiores quando nos tentamos inter-ajudar.
na terra da tristeza, os que a atravessam; se entraram por si terão que sair.
o andar é lento, pesado.
a visão é turva e cheia de miragens.
as mãos, em tudo que tocam sentem texturas rugosas.
os ouvidos ouvem nada, ou o ar que passa pelas ruas, pátios, espaços abertos...
o andar é arrastado e os pés sentem todo o piso.
a única coisa que me proteje é esta roupa.
esta terra tem um peso.
é fácil saber como é esse peso: é o peso da tristeza. nunca entendi porque decidi atravessar esta terra.
temo muitas vezes andar em círculo. círculos enormes, muito abertos, diâmetros que me fazem perder a memória dos locais por onde já passei.
parece que não faço muito para sair desta elipse. será que faço?
o que sinto?
é um vazio tão grande quanto esta terra. ou tão pequeno... ou tão, apenas.
vazio de amizades.
vazio de almas.
vazio de sentidos.
o que sinto é estar a correr para todo o lado sem saber qual escolher, sem sair daqui.
um abandono de tudo. um distanciamento. um recolhimento.
na terra da tristeza só existe uma saída possível, que é a mesma por onde entramos, que é por nós que entramos, por isso só por nós podemos sair.
vejo os colegas a juntarem-se e eu vou ficando cada vez mais de fora. na verdade, eu sei bem que nunca fiz parte desse grupo.
tive o meu. mas, que se diluiu.
entendo que a minha maneira de ser possa ser cansativa mas, não acredito que tenha sido esse o motivo. talvez tenha sido outro. não importa, o meu grupo já não se encontra mais e dúvido que tenha algo a ver com eles.
sempre entrei e saí de grupos. sou a visita temporária.
creio que nunca aguentei muito as mesmas pessoas durante muito tempo.
desprezei quem me irritava com a estupidez, a mesquinhices, a facilidade e a indiferença. irritava-me também ter menos possibilidades que eles. no entanto, obtinha melhores resultados, sem ter os mesmos meios técnicos e de contactos. hoje vejo-os a fazerem coisas, motivados por um sem número de gente. enquanto que eu vou definhando na minha estupidez e mesquinhez, na minha solidão.
sinto-me num outro lado da cordilheira.
e eu vejo que do outro lado os outros passam informações entre si. algumas atenções vão caíndo por aqui mas, nem eles me chamam, nem eu vou lá.
eu, os meus olhos vêm que crescem, que desenvolvem, que fazem acontecer.
e eu vou-me sentindo mais distante, mais impotente, mais sem ferramentas, mais sem orientação.
e com mais medo. de cometer mais erros.
vou perdendo a elegância. vou sedimentando. estagnando.
cair no que sempre me assustou: parar.
quanto mais fugimos mais vamos de encontro ao que nos perseguia. perseguimos aquilo do qual fugimos. um choque inevitável.
sempre fugi para a solidão.
o facto de os ver lá, a fazer, a produzir, deixa-me furioso.
a minha raiva e ódio resfrearam um bom bocado. estou bem mais doce. a agressividade resfreou também. estou a aprender a tolerar de novo, a estar com pessoas, a permitir-me que se cheguem, e chegar-me.
mas, o tempo anda sempre e esse fantasma também aparece. tenho medo de não produzir nada. tenho medo de não ser reconhecido. tenho medo de ser esquecido.
por isso preciso deles, dos outros.
a minha tristeza vem desse facto, de não ser chamado para brincar. básico uma vez mais.
medo de não ser necessário.
esquecido no meio dos outros esqueletos.
mas, hoje, na sociedade aonde ainda pertenço há um nota só: ou participas ou sais. não podes não participar quando queres. tens que estar sempre presente.
ninguém nos chama se dizemos durante algumas das vezes que não podiamos/queriamos sair. mas, se aparecermos na festa somos o palhaço, todos querem brincar connosco.
é perceptível esta imagem?
para outras coisas já não somos chamados.
sou uma pessoa difícil, sou uma pessoa complicada, sou uma pessoa conflituosa.
mas sirvo para resolver problemas.
também é fodido quando só nos chamam quando há merda.
ainda por cima eu nem sequer resolvo todas as situações, como é óbvio.
independente de tudo isso, o facto é que sinto-me vazio de amizades. não me sinto querido.
bom, não estou a ser absolutamente justo. na minha vida há gente que me reconhece.
a minha ignorância é que não valoriza esse reconhecimento. não me sinto querido é fora desses 2 ou 3 amigos. eventualmente nos meios mais banais.
triste necessidade esta, a de sermos queridos onde não nos querem, onde se pratica o quotidiano. é triste mas, é a vida humana que a requer. precisamos de ser banais para sermos integros. custa admitir mas, é verdade que a banalidade é também uma característica humana e temos que a saber inserir.
sinto-me vazio da alma.
tenho desenhado a minha vida em torno de nada. não me ligo a ninguém. e não encontro definição em torno do que já vivi.
bom, vou encontrando algumas coisitas.
nesta terra algumas coisas conseguem ser encontradas.
ao mesmo tempo esta terra vazia de gente... o que é esta terra?
demasiado óbvia a resposta, e dolorosa.
não encontro compromisso.
nem correspondência.
não encontro amor. nem sequer faço ideia do que isso possa querer dizer. não quero definir. se calhar não quero encontrar.
muito provavelmente não quero encher a vida. e vou deixando que me enterre nesta terra que está seca. vou-me funeralizando.
saí de casa dos meus pais para obter independência.
obtive aí 70% dela.
estou sempre a tinir. junto dinheiro para os tempos maus que vêm aí.
estou novamente desempregado a ganhar pouco mais do que uma renda.
desempregado.
mas, sempre com uma rede... bom, sempre temos uma rede onde quer que estejamos. e em último caso temo-nos a nós. só é pena que nós não nos cheguemos na banalidade do dia... ou, será que nós não nos usamos na superficialidade do quotidiano, e nos guardamos para uma realidade mais dura?
o que virá aí então?!
mas, temos sempre uma rede, alguém ou alguma instituição que nos acolha, se formos minimamente certinhos.
saí de casa e encontro-me 70% independente dos meus progenitores mas, 200% independente do meio físico e social.
tanto queria a independencia que acabei por ter demais.
precisava de reflectir-me.
o que tenho?
algum cansaço deste percurso e desta terra.
e não sei como sair daqui.
a minha alma não se encontra.
não sei o que se pode chamar de alma mas, acho que também isso está abandonado por mim.
a minha avó faleceu há alguns anos e ainda hoje sinto-me desamparado. a perda física dela não a sinto como sinto o vazio emocional.
não encontro na religião qualquer interesse neste momento. deus não me diz nada, nem nunca me disse muito, a não ser temor e cabeça baixa. sim, esse deus-homem está longe de me tocar. se procuro alguma coisa, deus não é prioridade.
independentemente de deus e da religião, acredito na minha avó. e muitas vezes sonho com ela, e é sempre divertido.
e sempre que tento chorar procuro pensar nela já que não a chorei na altura, pois procurava fugir ao choro tentando respeitar a sua vontade de que não queria que ninguém chorasse a sua morte.
custa-me falar da morte de quem gostamos.
custa-me ver gente triste.
custa-me ver gente a sofrer.
não que algum dia gostasse do que referi mas, o problema é não saber como lidar. não querer encarar. fugir.
sempre fugir.
correr para vários lados e não sair do sítio.
um histerismo.
sim, um histerismo por uma impermanência e insconstância constantes e permanentes. como se eu fosse um fluxo de energia sempre em movimento, agarrado a nada. flutuante, que serve a função de electrificar, que serve servir apenas e não aprofundar.
quando me pedem ajuda para o sofrimento eu simplesmente não sei responder sabiamente sobre o que a vida está a trazer naquele momento. principalmente quando são esses 2 ou 3 amigos que requerem a nossa atenção. é nada mais do que frustrante não ter muito a acrescentar.
não encontro sentidos.
precisava de ganhar alguma orientação.
saber o que quero.
sim, já sei que toda a gente quer saber o q quer. não vou enterrar-me nesse pensamento do dia.
preciso saber o que sou, para que sirvo, quais são as minhas funções.
pergunta-me "o que fazes (profissão)?"
responder "nem eu sei bem" tornou-se uma fuga já.
já respondo com um tom jocoso e com desdém.
não sei mesmo o que sou ou tenho vergonha de o dizer?
eu podia fazer tanta coisa...
essa situação é grave. devia poder fazer uma só coisa. seria mais fácil mas, eu nunca gostei da facilidade que a vida oferece. sempre segui o caminho mais sinuoso. sim, tenho essa consciência.
(...)
fazer isto, fazer aquilo?
que diferença faz?
a falta de orientação leva à alienação.
EPILOGUE
vazio de amizades (ainda que banais)
vazio da alma (o corpo sente dor, a alma sente ausência)
vazio de sentido (desorientado social, cultural, profissional, etc.,)
o irónico: saber que não estou sozinho e que isto não me basta.
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