PARTE 1
não estou mto sensibilizado, ou sensível, desde há uma boa série de anos.
a criatividade desceu, o meu espírito crítico está confundido, a espontaneidade esvai-se na pornografia diária...
[há quem diga que a pornografia é o expoente do,... do quê?... do fim do desejo. o fim... pfff é tão distante e ilusório como a arquitectura de Boulée - na sua época claro! ultrapassadas as dificuldades técnicas poderemos atingir o fim... ppffff!!! que ansejo mais idiota. não vemos nós que o fim é o tempo presente? - pensamento idiotizante e ciclico.]
penso que o mais certo é estar num esgotamento constante.
sou ineficaz, perco mto tempo a dar respostas e a única coisa com que consigo lidar bem é o erro. acontece que o erro não é o que mtos empregadores procuram! os empregadores n estão preparados para lidar com o erro dos empregados. com a sua ineficácia e a sua irresponsabilidade os empregados limitam-se a ser substituidos e a ser olhados de cima com o, bem claro e justo tom de reprovação.
consigo lidar bem com o erro?
não. também não totalmente assim. lido,... bom, lido com o erro, aceito, e não perco mto tempo a procurar desculpas. encaixa-me bem o erro.
pq é q do erro pouca coisa se aproveita?
está bem, não sou mto interessado pela leitura - e considero a leitura algo que nos livra do erro. caiam-me tempestades em cima. prefiro espojar-me em frente a um ecran de frequência persistente, regular ou irregular, ou dançar como um louco e desidratar como um desalmado em frente a uma boa coluna d bom,... ou qq som, a ter que ler, ler, ler, somar letras atrás de letras,... sim, assumo a chatísse que é ler. tirando a leitura pornográfica de João Ubaldo Ribeiro na sua Casa dos Budas Ditosos. Nunca li nada tão rápido! e nunca fiz por que algo não acabasse tão depressa! prolonguei a última página durante duas semanas, a pensar que ainda tinha mais dez páginas para ler para o final, e assim poderia prolongar a proximidade do fim até mais tarde. surpresa desanimante foi quando, de repente, viro a tal 10ª página e na seguinte a folha estava em branco. algo se passava! algo ali me estava a ser comunicado... erro... página em branco... file not found, end of file/document. file corrupted - bad CRC document can't be read!!!... Rai's partam Ubaldo e o seu erro de fim de página.
Adorei outro: A Angustia da Influência. tb um livro franzino mas, de teor diabólico. somos presos em todas as teias até naquela que não existe.
A leitura que não me desafia aborrece-me de sono. Aguardo o fim do livro... como o fim é utópico... quase parece não ter fim.
Por isso não aconselho ninguém a ler. Penso que tal conselho é de vir de dentro. não censuro a ignorância por falta de leitura. não censuro o erro pelo mesmo. a leitura é uma coisa chata que nos faz perder tempo. é como cozinhar a vapor, ou num fogão a lenha e cozinhar num micro-ondas. ver um filme ou ler o livro que serviu à adaptação, por qual ficamos?
a falta de leitura leva-me ao erro. e com o erro eu vou-me encontrando.
Os jornais... q dor de barriga. Não os leio mto e cada vez os leio menos. O que se aproveita mesmo são algumas crónicas humoristas e satiricas. O que mtas vezes acontece é que caiem na acusação e o efeito é pouco incisivo. - Assim penso eu.
os jornais têm 4 secções: 1 de notícias, outra leva com as crónicas e artigos de opinião, a secção cultural e recreativa onde se associam os classificados, e finalmente o desporto. a primeira é um tédio só: infelizmente as notícias não podem ser inventadas. são criadas mas, inventadas já é exagerar. são criadas pq a realidade é tão repetitiva e tão cheia de erros porque, não se pode passar à fase seguinte enquanto o erro não for resolvido e então há que repetir, que é imperativo dar um cheirinho de qq coisa à notícia. mas, o substrato é o mesmo de há dois ou três meses atrás. a politica nacional é miserável - os desgraçados dos jornalistas só se valem por haver alguns políticos que bom,... têm o seu sentido crítico pior que o meu, e vêm mais pornografia do que eu, e então não distinguem o que representam de uma banca em praça pública, um ringue de um circo (e salvem-se os palhaços, os leões e restante fauna circense - com todo o respeito politicamente correcto), ou a selva ou savana africanas. mas, são estes errantes que trazem sorrisos. na política internacional a situação não é diferente: a qualidade dos políticos é a mm, são apenas de outras nacionalidades. uns impõem-se, outros permitem as imposições e outros são os submetidos ou jogados.
num reparo que fiz às notícias internacionais uma grande parte era sobre guerras acesas ou em fase de ignição eminente e em todas elas havia o erro americano. curioso! não queria ter apontado ninguém mas, é situação à qual não há outra maneira de dar a volta. as restantes notícias internacionais ficam em caixas pequenas... coisas insignificantes e até desinteressantes face ao empenho na maioria.
cultura, classificados e desporto: é certo que é a melhor parte para se ler mas, com a porrada que se leva do que vem em primeiro,...
desde sempre que por este mesmo motivo, abro o jornal do fim para o princípio. há sempre as BD's, sim,... tem imagens. hhhmmm é bom. os olhos não se perdem na malha de letras de um texto. é irregular, tem erros e precauços na linha.
o desporto: bem que passo à frente. não me identifico como um ser virado para a competição. gosto de desporto. mas, d o fazer com quem gosta de errar a bola, com quem cai e tropeça nos pés enquanto corre. com quem anda sempre de cordões desapertados e anda sempre metido nesse risco de partir os dentes no cimento. com quem perde e sente prazer na derrota, com kem ganha e pensa que podia ter ganho mais não fosse akele mau jeito no pulso.
resta-me a cultura, pela qual passo os olhos, leio uns artigos, algumas curiosidades cientificas. sim, aí faço uma paragem mais serena, porque também lido diariamente com cultura: cinema e arte contemporânea. e se não me mantenho minimamente a par, bom, então deixa de ser erro para ser desmaselo.
estou errado? bom, é natural!
por isto tudo, jornais é preciso ter estofo para os ler.
mas, o erro não acontece só por falta de leitura! nem pensar. falta de movimentação é outro motivo. ter que ir aqui ou ali para ver isto ou aquilo...
mas, eu n queria apenas falar do erro.
antes, apresentar o que se passa com a minha falta de sensibilidade, sentido crítico e falta de espontaneidade.
será o erro? o erro apanha-nos e podemos cair no ócio, na preguiça... e estes dois eu odeio profundamente.
fazer coisas. coisas que agradem a uma comunidade. fazer mover...
fazer. qq coisa servirá. é a tónica contemporânea. e há um sem número de indivíduos que querem fazer para sobressair da sua individualidade e assim ser mais fácil viver.
tenho vindo a perder a necessidade em sobressair, em ter que fazer por fazer. em lutar por viver. em sobreviver. o essencial parece-me bastar e sobrar. mas, o essencial é aparentemente calculista, matemático, sem dúvida,... e então é requerido mais. não preciso de cores para escrever. precisaria de cores para salientar algo que eu considerasse mais importante mas, nem por isso sou deixado em paz por apresentar o essencial, e esse essencial não passar d uma folha branca, cinza, ou de uma cor lisa, e um desenho a uma só cor. o desenho não pode ter uma linha só. o desenho não pode ser sintético. o desenho tem que mostrar complexidade técnica e tecnológica (tecno-lógica). o desenho precisa de ser ilustrado ou ilustração de si mesmo.
claro que quem vive neste conflito de procurar embelezar o que para si já é belo vai ter problemas em aceitar a sua criatividade, a sua espontaneidade, o seu sentido crítico, porque aos olhos dos outros não é relevante.
como me sinto um indivíduo, sem passar pela ideia de egoísmo, n encontro necessidade de tornar mais bonito aquilo que para os outros é pobre e para mim essencial. daí estar sempre a testar capacidades, procurar o que os outros fazem e tentar compreender se o problema está em não conseguir replicar o efeito ou se apenas não o quero reproduzir. e assim vivo neste conflito. à procura sempre do erro dos outros em mim. à procura dos meus erros para apresentar. os meus erros acabam por ser bem mais complexos que o meu traço essencial.
compreendo agora as minhas fotografias do vazio.
são erros. não têm visão nenhuma do espaço. mas, são bonitas pelo mistério q encerram. é como que um dripping de luz.
acabarão por representar uma individualidade na sua essência. não precisam de ser mto estruturadas, nem tão pouco de ser mto estudadas. são aquilo que se vê e o seu potêncial está além delas. são quase autistas. cheias de erro. como se não tivessem acontecido. é, é isso, registos do que não se viu.
quem lerá isto?!...
PARTE 2
são quase 6:00 da manhã e a minha inspiração para escrever está ensonada.
ainda n terminei de editar a parte 1 deste registo e já estou a escrever a parte 2. de referir que mto provavelmente aquilo que escrevo para trás sofrerá alterações - e isto só serve para quem se interessar e acompanhar a minha exposição covarde.
sinto-me como que aéreo sem energia para fazer brotar aquilo que sinto...
cá está: este é eventualmente a causa da minha falta de sensibilizadade.
mas, vou ouvindo michael brook e pieter nooten que me fazem ligar a Olímpia.
é isso que me torna estranho ao meu corpo: esse vazio.
em algum momento da minha vida de frutração crónica decidi acabar com esse estádio frustrante e começar a adorar as coisas por onde passo. decidi deixar o meu autismo que, de resto servia de impulso criativo, para dar tempo ao contemplativo. ser menos invasivo à natureza das coisas, menos participativo, deixar-me fluir pelos momentos, entrar e sair... mas, isso não parece satisfazer-me. ainda n terei aprendido a saborear a plenitude desses momentos e aí eu sinto-me vazio em mim.
parece que este contemplar não é totalmente o que procuro. ou então não o sei fazer pois, preenche-me no momento da contemplação e disso guardo poucos registos palpáveis.
é verdade que adoro sair à rua e sentar-me no banco da praça... bem pela manhã, e apanhar aquele sol de inverno, que aquece as maças do rosto e não nos deixa sentir o as extremidades frias do corpo, geladas pelas baixas temperaturas... ficar a olhar o movimento das pessoas.
é simples a acção e a sensação. são bem complexos os circuítos dos movimentos de quem vemos. a velha e aborrecida pergunta: "para onde vão? quem é esta gente que partilha o mesmo espaço que eu?" é a primeira coisa que me aparece. pouco interessante mas, o tempo passa e já centenas de pessoas passaram à minha frente. "a que cheiram os seus corpos se estivessem despidos ao frio?" contemplar, admirar os outros e as coisas. quantificar e analisar as infinitas formas de se estar.
isto quase se torna numa actividade pornográfica: num estado permanente de voyeurismo que a dada altura só nos traz efabulações. se contemplar desta maneira durante mto mais tempo então passarei a fazer salsicha alemã, ovos estrelados e batata frita sempre q cozinhar pois, ficarei alcoolizado com o momento do fritar: as bolhinhas de óleo a crepitar à volta das batatas, da clara e da pele da salsicha... caio num soma temporal.
é nesse autismo surumbático em que tenho caído há alguns anos.
demasiada frutração, demasiada função a cumprir e tarefas matematizadas empobrecem-me os receptores sensoriais. entopem-me as guelras e o oxigénio deixa de ser abundante no cérebro e então dão-se as confusões, os esquecimentos, a espontaneidade a criatividade são substituídas por um fio de saliva q cai pelo canto da boca...
de tal forma que precisei escrever este texto para analisar e compreender o q se tem passado comigo desde há 3 ou 4 anos.
sinto necessidade de falar mas, parece que não sei o que dizer de interessante. e então calo-me. sinto que o espaço está repleto de coisas ditas e reditas e não me atrevo a inundar um pouco mais o espaço comum saturado do que é sempre o mesmo. não encontro saída deste ciclo fim de século.
primeiro foi a velocidade que me chocou. depois foi ter reparado que dessa velocidade não posso sair e tudo o que fizer será positivo para excitar os neutrões, iões, e todas as particulas formadoras do nosso espaço contemporâneo.
portanto a solução não é sair. não é parar. o que fazer para lançar uma pedrada no charco?
lá está a tentativa de se querer individualizar e soltar-se do conjunto e da massa humana.
um dia alguém me disse que eventualmente não adiantará fazer nada pois tudo já foi inventado ou descoberto. esta deve ser uma das frases mais frustrantes que se pode ouvir... e gostaria de não a ter escrito aqui mas, é importante saber que esta verdade é absolutamente relativa ao meu universo e que, mesmo no meu universo não é tão verdade assim.
sinto uma ansiedade terrível em criar e sinto-me perdido, sem saber o que dizer. ânsia assente no fantasma da originalidade, do ter que ser bom, do que ser o melhor, da perfeição e da falta de aceitação da forma própria de ser como sou: imperfeito, casual, errático, vulgar, com um poder igual a todos vocês. sou igual a ti independente do que venha a fazer ou do que já fiz. mas, isso não me satisfaz.
não sei a quem servirá este depoimento mas, não estou interessado em descobrir isso.
normalmente a tendência é para ridicularizar estas atitudes. referir que este tipo de exposição é medíocre e sem interesse. a internet, já um milhão de gente o disse, é um veículo que n serve os propósitos humanos mas, milhão e meio contra-disse-o. eu n estou interessado em quem pensa da primeira forma pois, n dão os seus interesses são outros. e tb n estou interessado nos da segunda pois, esses já estão convertidos. o meu propósito? bom, estou sem terra, sou ninguém da terra, não me parece que tenha preocupação com o sentido que faço ou deixo de fazer. apenas discutirei os assuntos sem apontar e sem receber apontamento de juízos.
and yet, everyday something new appears as an original thing to be...
o mais certo é estar num esgotamento crónico.
procuro entender-me.
e porque motivo tenho dificuldade em criar?!
qual é o meu medo interior?
será esse, o de não lidar com o facto de não me conseguir destacar de alguma maneira?
ninguém da terra é aquele que sente o seu isolamento dentro de si. sente o peso de estar só. sente o vazio do seu corpo. e então tudo parece cair ou flutuar exceptuando o erro, pois é uma maneira interessante de ser chamado à base. errar funciona como um pedido de ajuda: "bang! chamem-m à base! quero estar no meio de vós!" ainda que de forma despropositada, deixar-me cair no erro é deixar fluir as coisas sem volante seguro. eu vou e por onde as rodas forem eu seguirei, e se embater em alguém, algum obstáculo, será optimo pois notarão no estrondo que faço, no toque q dou.
ninguém da terra, em queda livre... "Bang!"... "BANG!!!"
conduzir sem as mãos no volante, fazer um risco no mapa e consequentemente no espaço real.
incrível que este vazio só existe porque me permito a isso. e este estádio irrita-me. não sei preencher-me com o que desejo, com o que preciso...
porque será?
a primeira coisa que me vem à cabeça é a preguiça. preguiça para pegar e fazer essas coisas que um criativo precisa de fazer para poder criar ainda mais... mas, por onde começar?
tudo se pode comparar ao desportista que sempre foi desportista mas, que por algum motivo, em algum momento da sua vida houve uma necessidade de parar e contemplar o quanto correu.
- quando retomar a corrida os seus músculos vão doer como se estivessem a ser esticados sem paragem.
um ácido leitoso vai sair pelo tecido muscular e libertá-lo dos químicos q foi ingerindo entretanto. e entretanto, vai retomando parte das suas capacidades de corrida. mas, voltará a correr tão bem com corria até ao momento da sua paragem?
o erro é a minha paragem. quando erro estou a parar e vice-versa. e o meu momento de contemplação sobre o que fiz até aqui permitiu-me parar para errar para parar.
perdi o control do que fazia, ou será que nunca o tive, ou será que o tentei ganhar? estupidifiquei e reduzi ao cálculo a minha espontaneidade.
e vezes sem conta penso que nunca fui mto criativo...
lembrei-me que perdi ontem a apresentação de um amigo meu. e hoje lembrei-me que nunca tive hábitos para nada que não fosse para estar a ver, a olhar. perdi a apresentação do meu amigo porque não registei com afinco a vontade e necessidade de o ir ver. perco várias exposições por mês pois, embora tenha vontade e necessidade não estou programado a programar as minhas visitas. visitar amigos, visitar locais, visitar... nunca estive programado para isso. nunca estive programado para ler.
o erro sempre foi a minha linha de condução. sempre que cometo algum eu tiro partido da situação e, embora por vezes com algum penar emocional, consigo passar por entre as consequências do erro sem dificuldades profundas. acho que não sou nada fora do comum. choro pelos erros q cometo como toda a gente o faz e felizmente nunca houve um processo irreversível. bom, na verdade, analizando o poder do erro, nenhum processo é reversível. a continuidade dos factos não permite que voltemos atrás para corrigir. não há undo's. arranjaremos sempre um solução alternativa à situação dos factos.
perdi ontem a apresentação de um amigo meu porque não tenho este hábito de ir ver coisas. perco exposições e filmes porque não tenho o hábito de ir ver coisas. perco... bom,... não é perda. é falha. ausência minha nesses tempos e espaços. não é perda porque nunca o tive! é erro de percurso. como quando vamos a ler um mapa para chegar a determinado destino a X horas mas, como nos enganamos no caminho, e a festa no ponto X não vai deixar de acontecer pela nossa ausência, então nós não a perdemos ela acontece, nós só não vamos estar lá. dizer "perder" é uma palavra pouco precisa e torna a expressão fantasista.
não fui à apresentação do meu amigo e estou realmente chateado por isso.
culpar o meu passado desabituado de coisas é chão que não dá uvas. que fazer?
ultimamente tenho ido muito ao cinema e reparei que gosto de estar ali sentado, a ver/ouvir uma história, não importa qual. gosto.
ir a uma apresentação de um livro, ir ler em conjunto é coisa que raramente faço. e ir a exposições, ir a outros locais para ver e estar presente é igualmente raro.
repito-me já sei.
PARTE 3
esta semana atraso-me na inventariação da terra.
tenho detetado esta constante: falta de criatividade, excesso de trabalho e um percurso pelo fio da lucidez, da depressão e o de um esgotamento crónico. a cabeça dói-me, e isso raramente acontece.
a esta constante chamamos-lhe A.
então A atormenta-me há... desde que comecei a desrespeitar-me de forma assumida, desde que me comecei a embebedar para me adormecer sem dor e sem tempo de espera.
sim, é isso. não quero com isso dizer q vou deixar de beber.
não bebo loucamente, até perder a consciência mas, bebo e o meu espírito fica mais aguçado. nas horas de maior lucidez eu fico chato e pouco criativo. quase apetece estar alcoholizado uma boa parte do tempo.
o alcohol entrou em mim bastante tarde, era eu da terra. e mal eu sabia que havia além da terra. vivi num mundo de fantasia criado pelo que via. não pelo que me era oferecido mas, pelo que me oferecia a mim mesmo, e assim que deitava o olhar em alguma coisa, em algum acontecimento, em algum objectivo, esse alvo explodia em milhoes de interpretações e efabulava durante semanas a fio sobre esse assunto.
o meu reinado autista durou 16... alguns anos mais além dos 16.
vivi inicialmente num mundo protegido de tudo. não eramos ricos mas, eu e os meus irmãos eramos protegidos de todas as realidades para que criassemos as nossas ilusões. hoje cada vez mais rapidamente essas ilusões vão caíndo com o choque da respiração. viviamos dentro de uma redoma, de algum silêncio e ausência de partilha. o comum em mtas das famílias da terra. outras famílias da terra terão outros problemas e virtudes. a minha também tem virtudes claro. e tem-nas ganho aos poucos tal como é o choque da respiração...
vivi fantasias criadas por mim. vivi fantasias criadas pelos outros. e nem para isso precisava de simuladores artificiais de realidades. era super-criativo - sem dúvida alguma que o era! não quero dizer que com o choque da respiração - o choque da realidade - venha a ter ficado menos criativo. mas, o certo é que essas fantasias brutavam e permitiam-me habitar um mundo fechado, autista, um mundo fantasticamente louco - ausente!
hoje eu vejo mtas das consequências desse autismo.
algum tempo depois a minha natureza criativa teve uma abertura para o mundo exterior. pouco importa o que fiz nesse mundo para agora. o interessante é saber que a minha natureza paradoxal acabou por me chamar de novo para o interior.
paradoxal pq parece-me uma contracenso poder ser-se criativo de forma fechada! mas, o paradoxo é possível.
assim que comecei a sair do meu autismo apercebi-me das pessoas.
quando uma criança nasce o primeiro choque é o da respiração, o contacto com o meio extra-uterino é brutal física e psicologicamente - o bébe acaba muitas vezes por chorar tal é o contraste.
o segundo choque da vida é quando nos apercebemos das pessoas.
pelo menos é este o meu caso.
até aqui havia pessoas lá "fora". e cá dentro "dentro" habitavam personagens.
é difícil criar personagens!
mais difícil é tocar em pessoas - como me parece óbvio.
o choque com as pessoas foi por perceber que elas não obdeciam a um argumento! muito menos a um escrito por mim! o choque foi entender que as pessoas seguem o seu rumo...
sim, digo banalidades para o comum dos mortais que chegou da azafama do trabalho... mas, isto significa mta informação: sobre a vontade, a recusa, o ser ignorado, o ser desprezado, o ser querido ou escolhido, o ser pegado,...
tudo isso foi novidade. novidades essas que não integrei actualmente.
respeito a vontade do outro mas, se essa vontade for de recusa eu terei medo de questionar sobre o que o outro quer... o mesmo se aplica ao resto, pela dúvida que suscita.
no meu império autista eu n tinha receio em perguntar se ela me queria. hoje receio fazê-lo pela hipotese da recusa.
o ser querida também não é fácil. no meio do meu autismo tb n aprendi a ser escolhido para o prazer. como poderia eu saber lidar com esse pedido q vinha do outro?
como saberia eu ler sinais de desejo?
no meu universo inventára eu os meus sinais e comunicações.
por isso, posso dizer que era criativo... se não o tivesse feito era mto possivelmente um vegetal! e aí em vez de ter sido eu a escolher ir ao psicólogo com alguns anos de idade - tinha eu acabado d aprender a ler - seriam os meus pais a levar às urgências do hospital...
o meu mundo autista tem-me chamado de volta.
e com alguma calma, sinto-me a voltar.
o isolamento em que me tenho encontrado está a ajudar-me nesse processo.
desta vez como o movimento é de retorno, levo comigo mta informação. que não será processada e devolvida ao exterior.
continuo a pensar que recrio situações originais quando me encontro sozinho.
mas, o poder do meu autismo não está nessa - de certa maneira o é - arrogância. mas, sim no encontro que tenho tido comigo.
felizmente não estou a fazer o retorno virgem. tenho informação, como disse.
neste meu novo retorno estou a ter um novo choque. o confronto comigo mesmo.
encontro o meu espaço autista vazio.
a dor da passagem de um meio para o outro é poderosa. já não é tão física como é o choque da respiração.
PARTE 4
eventualmente a última parte deste tópico.
já não escrevia há algum tempo.
...o meu mundo autista chama-me de volta mas, desta vez eu levo comigo algumas ferramentas. o meu autismo não é para mais ninguém que não eu. não fosse o meu autismo.
o meu autismo poderá voltar a ver-me mas, desta vês eu vou conseguir saltar fora quando precisar de o fazer.
o confronto que me tenho negado é para mim um abismo: ficar totalmente só.
sim, temos amigos, temos família. temo-nos a nós próprios. sim, é isso.
são essas as palavras. são as palavras vazias se não tiverem munidas de experiência. para já sinto horror ao sozinho.
o confronto não é só com a solidão. é tb com a falta de confiança, segurança. é com a frustração em não conseguir dar o salto - seja lá o que isso quer dizer. ou ainda mais grave, não conseguir ver os saltos que dou.
desses medos lembro-me que a minha segurança é construída por cima de arrogância e prepotência.
a confiança foi algo que nunca tive.
não, não vou apresentar-me como vítima. não vejam estes escritos dessa maneira. apenas, no mínimo, como analítica. posso ser cego em muitas coisas e de muitas formas mas, perdi o meu estatuto de vítima há uns anos largos.
pois, confiança defacto, foi algo que não me lembro de sentir.
se já falei dos motivos dos meus medos, alguns deles devem-se a esse facto.
não estou a ser absolutamente justo. houve duas pessoas que me estimulavam a minha criatividade. uma era a minha avó, outra a minha madrinha. infelizmente a minha avó morreu para este espaço físico. e infelizmente a nenhuma das duas eu entregava a minha confiança! irónico, ridículo, louco, estupido até mas, elas falavam, diziam, sobre o interessante que eu fazia mas, eu sempre fiquei acabronhado no meu autismo, sem coragem para apresentar nada - apenas a elas. e para estas duas mulheres o seu sorriso era a melhor das críticas. e claro, como em tudo há coisas boas a tirar, elas sempre apontavam o melhor do que lhes era apresentado.
não sei se eu tinha algo de interessante no que fazia. hoje eu vejo em algumas das coisas que ia fazendo que tinham bastante piada. inclusíve aconteceu já ver dessas coisas antigas, e perguntar-me "será que fui que fiz? está bom!"
mas, eu não lhes dava relevância e assim continuava a "trabalhar" nas minhas loucuras.
se desse lado vinham coisas boas, desse lado, dessas duas mulheres. de dentro de casa já não se podia dizer o mesmo. e era de casa que mais se espera que os apoios venham, já que é com eles que nós passamos uma grande parte da nossa vida. eu não me lembro de pensar "coisas" com nenhum dos meus pais! de dizer patetices.
nós esperamos sempre uma mão do lado de dentro.
não que cortassem o q quer q fosse mas, tb não se moviam.
e assim nunca tive crítica ou voto de confiança que me levasse a desenvolver mais, neste ou naquele caminho. sim, havia aquele "olha que bem" ou "engraçado"... não está mal para umas primeiras vezes. mas, como alvo de crítica tb acabamos por querer mais!
[na universidade o nível de crítica nunca passou desta qualidade.]
o facto de nunca ter pensado em conjunto dentro da família, de nunca ter sido alvo de observação e cuidado/reflexão - e estou a referir-me unicamente àquilo que uma criança faz a nível de expressão visual, sonora, física, e não ao cuidado de pai ou mãe, esse tive-o como muita gente o teve - fez com que nunca tivesse tido desenvolvido confiança ou falta dela. era eu. apenas eu. bastava-me a mim de certa maneira. também confesso que o meu universo era fechado, que nunca pedia opiniões, era pouco participativo, tinha medo da minha família pq eram pessoas grandes (e na verdade não são muito grandes - têm estaturas normalíssimas eu é que era muito pequeno).
entendo agora a minha falta de confiança.
no mundo é preciso debatermos as nossas ideias. para o fazermos é necessário acreditar nelas quando são expostas. e quando são expostas estão a ser observadas e mexidas por outros - um processo natural - mas, o que acontece é que nunca tinha tido necessidade de expôr-me - e para nos expor-mos é preciso confiarmos. o olhar do outro melindra toda e nenhuma confiança q tenhamos. pior que n ter confiança é não saber que precisamos de a ter. e esta era a minha situação.
saí do meu mundo autista e foi como um choque anafilático brutal. não sabia o que eram pessoas.
confiança ou segurança.
hoje entendo porque tenho tantas dúvidas quando quero beijar alguém que me motiva para tal.
o monstro começou a nascer quando o confronto aconteceu.
e as dúvidas vieram com ele, assim como, as defesas e maneiras de lidar com o outro, tb.
essas maneiras eram violentas para mtos dos interlocutores por quem eu ia passando. e uns davam com os pés, outros procuravam amenisar e ajudar a integrar-me. coisa que nunca soube muito bem fazer: integrar-me. hoje já vou sabendo melhor entrar no meio das pessoas. aliás descobri a minha maneira de o fazer. não deixou de ser bruta mas, apliquei o meu toque de candura. todos temos algo doce em nós. misturar tudo sempre foi o que gostei mais de fazer.
sinto-me revoltado porque só aos 30 começo a vislumbrar uma série de respostas ao "porquê é que eu sou hoje assim?". o engraçado de tudo isto é que eu vou pintando a cena aos poucos e vou rindo de muita coisa. isto apenas ajuda a traçar caminho. entender-me. algo psicanalítico...
hoje entendi outra coisa.
estava a vir para casa e a pensar como aprendi matemática.
muito daquilo que somos hoje, sempre foi o fomos, e continuaremos a ser. é nato.
porquê a matemática? bom, porque foi penoso. ainda hoje lido com números de uma maneira muito particular. é claro que me permite pensar naquilo que se envolve com esses mesmos números de maneiras diferentes. o tempo, os tamanhos, o que é contabilizável tem noções próprias. por vezes encaixa no social, por vezes, desencaixa...
a infância foi óptima.
aprendi a saber o que é paciência. embora hoje a pratique de maneira diferente.
o ter que aguardar tempos infinitos que me permitissem fazer algo, ou o ter que ouvir sermões, esperar que alguém me viesse buscar às 9 da noite à escola,... tempos... ter que passar por explicações de matemática das quais pouco entendia...
tudo isso deu-me espaço para imaginar. números.
passamos todos por isto.
mas, eu aprendi a fazer nada. estar quieto com o corpo. contemplar, durante essa espera. eu não me cansava enquanto esperava. estava calado. estava estabilizado no meu canto. brincava com areiazinhas que ficavam no passeio. este era muitas vezes o brinquedo. acabava por não precisar de nada para construir.
mas, onde foi essa loucura toda por estar parado, por não ter objectos?
bom, tinha brinquedos, sim, como toda a gente tem. mas, isso é o convencional, nem brincava muito com eles. eu era mais, nada.
e daí saiam muitas coisas. parado.
também por isso, por ver tudo com uma calma estendida, quando falavam um pouco mais alto eu sentia o contraste.
curiosamente hoje gosto de falar alto, pois, acabei de ver exemplos graciosos de sons altos, largados na noite por pessoas com franca graça. e aí, os imitei.
a imitação é outra coisa que me deixa perplexo.
como posso imitar tudo?
eu olho e mimetizo. e assimilo. este é o processo.
tantas vezes se assimilam maneiras, dizeres, vozes, traços, tudo, que a dada altura já nem sei o que é que eu sou.
eu faço o que outro faz, que faz o que eu faço, para outro ainda o fazer... e claro, no meio de tanto faz o que o outro faz, que a dada altura parece que fazemos diferente mas, é sempre o mesmo.
a imitação é uma bengala de confiança.
mas, não é a confiança.
a imitação vive no medo de ser descoberta.
só que como o estado da nação vive embuído neste processo, já ninguém acusa ninguém. não é preciso. respiramos com o resto de ar do outro, ou com o ar que o outro expira... enfim, qualquer coisa assim.
e com esse medo latente mas, que defacto, será inconsequente pela ausência de acusação, tudo o demais vem ao de cima: medo de se expôr, medo de arriscar, medo de aprender, medo de falhar, medo de criar, e claro, sempre muito, muito, muito erro.
a sensibilidade e a criatividade estão melindradas porque a percepção da imitação é abissal.
Epilogue
acabei a minha primeira apresentação.
não é nada do original. não me interessa isso.
acredito que n seja forte. tb já pouco vale ser forte, pois tudo o q é forte já nasceu e vive forte.
agora o espaço é dos fracos e errantes, e sobretudo dos andantes.
andar até morrer, sem fronteiras.
o bom é conseguir desenhar esta linha de acasos.
o mau é estar demasiado estagnado pelo medo da imitação.
o vilão,...
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