terça-feira, 3 de março de 2009

the bullet

há alturas em que estou tão bem, mas que pelo acumular de tensões e situações, rapidamente revelo as minhas fraquezas
há alturas em que viver é fodido.
dá vontade de partir para a guerra.
...ir contra a primeira bala.

de peito aberto.
combater o inimigo que há na minha existência.
esse inimigo sou eu próprio também. de que outro inimigo se pode falar?!

sou eu caído numa sombra.
é nessa sombra que se encontra o inimigo e o monstro.
um monstro devorador de emoções.
é um furacão. é Tuphōn.
não há como vencê-los porque são aliados sem Luz.
eu pelo menos ainda não sei como o vencer.

gostava de poder pegar na minha espada e confrontá-lo frente a frente.
a minha carne em frente à dele.
e atirar-me como se fosse um guerreiro de Esparta. sem medo. confiante da vida. confiante no momento.

mas eu não encontro essa sombra onde habita Tuphōn e o meu espelho inimigo.

se derrotar Tuphōn abro luz sobre a minha sombra.

aqui tenho que o acusar.
tenho que o trazer a alguma Luz.
há que o chamar à rua. trazê-lo à Luz.

mas há dias que se eu tivesse a minha espada eu correria de olhos bem abertos para o seu centro de tempestade.
e hoje,...
se hoje eu já soubesse em que recanto dos infernos faz o ninho este dragão,
mesmo esgotado e sem energias,
aguardando que a carne se desprenda dos ossos,
eu arrastar-me-ia até onde a respiração me levasse.
e nesse momento quase final, do meu último fôlego sairá um berro suplicante que o fará aparecer pare me devorar uma vez mais...

de sua casa Tuphōn consegue chegar até mim pois não é uma distância geográfica.
ele habita nas emoções que procuro.
consegue chegar até mim porque também me tenho como inimigo do lado dele...

as coisas vão mudar.
eu vou para a guerra.
correr contra a bala disparada pora mim.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

when the birds calls me to come down to earth

aqui são exactamente 3a.m.
precisei umas horas valentes para sair do meu estado de fascinação pelas coisas que hoje vi.
viajo poucas vezes de forma física.
devia fazê-lo mais vezes, pois qualquer coisa que vejo de diferente é um fascínio.

ao longo da minha viagem de metro, que quase me obrigou a percorrer a linha vermelha de lés-a-lés, 3 situações (+1) com muito em comum foram-me presenteadas por alguém.

o tempo estava húmido e seco.
algumas nuvens no céu. nuvens altas que quase apagavam o sol.
mas o sol ia aparecendo. estava muito calor.

saí da cidade e começo a entrar num meio absolutamente rural.
o espaço envolvente do metro de superfície deixa de ser cinza e fechado, para ser verde e soalheiro.

linda esta abertura do campo de visão.

ao longo do percurso passo pelo aeroporto e avisto algo que para mim é raro: um avião bem pertinho do chão a fazer uma aterragem.
como ia em sentido inverso ao da aeronave quase parecia que ele planava.
escondeu-se por detrás de umas árvores.
eu logo tentei ver por onde ele seguia, e felizmente a linha torneava essas árvores revelando novamente o avião a poisar.
já tinha passado por este local outras vezes e nunca tinha visto uma aterragem assim. tudo muito devagar... muito lento... parecia que o tempo parava para eu assistir ao evento com toda a calma.
era da Lufthansa onde o logo é uma ave. não é difícil que o logo de uma companhia aérea seja algo que voe, mas eu fiz questão de reparar quem é que andava por ali.

acomodei-me novamente no assento.
deixei-me passear pelos campos de milho ladeados por pequenos bosques repletos de várias espécies de árvores.
adoro esta viagem. relaxa-me muito...

mais à frente olhei para uns postes eléctricos que estavam bem no meio dos campos e reparei que nos cabos estava parado um pássaro.
não era uma pomba ou gaivota... era algo dali dos bosques. mais próximo à rapinagem.
saltou para o ar num voo calmo e mergulhou ali entre as ervas.
novamente o tempo estava a meu favor.
mexi-me do lugar para ver o que aconteceria depois, mas só consegui entender que se perdera entre as tais ervas altas. o metro avançou e não esperou pelo meu fascínio.

interessante.
dois voos bonitos de serem vistos.
relaxei novamente até chegar ao meu destino.
foi uma hora de viagem.
fui a uma reunião de trabalho.
não levou muito tempo e retornei logo que pude.

chego ao meu destino de origem.
tenho que passar numa rua bem inclinada, onde está colocado um prédio enormíssimo.
como a rua é inclinada eu olho mais para cima.
num momento do meu olhar reparo no ponto mais alto do prédio que pertence a um hotel.
novamente um pássaro a pairar no ar durante algum tempo.
era por certo uma pomba que apanhou uma camada de ar quente e gozou aquele prato todo.
esteve muito tempo a pairar. e eu parei o meu andar para a ver.
foi como se alguém dissesse para olhar para aquele ponto do mundo.
com toda a casualidade do olhar, olhei para cima para prestar atenção ao que acontecia ali.

a ave planava no voo.
e a dada altura mergulhou para entrar numa varanda do prédio.
mas não entrou logo.
voltou a subir.
e voltou a descer novamente.
entrou na varanda.
voltou a subir de novo.
planou um bom pedaço e depois eu continuei o meu percurso como se alguém dissesse: "ok, prossegue agora com o teu caminho."

cheguei a casa para pousar a mochila.
fiz uma série de coisas antes de sair e fui até à cozinha onde estava uma daquelas traças lindas que se cola à superfície e tem uma cor creme com dois olhinhos em cada asa.
só que ela estava no chão.
tentei pegar nela para fazê-la voar.
toquei-lhe na asa e ela saltava à toa.
voava um pouquinho e logo voltava ao chão da cozinha.
virada ao contrário, de patas para o ar, ou mesmo virada para baixo.
ela não parecia importar-se com o facto de ficar virada de pernas para cima!
eu insistia que ela ficasse confortável numa posição mais natural já que ela não queria sair do chão.

questionei-me porque raio assisti a 3 situações de aterragem?
ao início pensei que algo me dizia para arriscar mais na minha vida. o voo é sempre algo arriscado.
mas a pensar mesmo bem, o mais difícil do voo é voltar a pisar uma superfície estável.
seja como for só estava a ver o lado da mensagem para voar alto.

a mensagem não é essa não. ou antes não é só essa.

tenho passado por situações diversas de ansiedade.
o meu caminho tem sido farto de ansiedade.
desce à terra.
lida com a realidade.
hoje disseram-me que tenho que sair de onde estou a morar porque é nocivo.
não me deixou triste.
tenho que descer à terra para poder arriscar convenientemente.

o que é estranho é quando as mensagens são faladas através de coisas, objectos, animais, situações que estão no meio do nosso dia banal...
quando vi o pássaro no hotel, quando retomei o meu caminho senti um arrepio doce pelo corpo.
e agora quando percebi que tenho que assentar os pés na terra voltei a sentir o mesmo.
esquecer um pouco a minha fantasia.
e olhar para o chão firme.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

dream of the flyboy

acordei agora.
lento. muito lento.
os braços cansado.
a boca cerrada ainda tensa.
a vista semi-cerrada.
os dedos escrevem lento.
a cabeça a recordar o pormenor.

acordava e revirava-me na cama.
estava de braços torcidos para a frente.
a respiração ofegante. chegava a roncar.

adormeci lento...
recordo-me de tudo.
estava marcada uma sentença de morte de um homem.
eu fui assistir.
não havia pena de morte.
mas não era preciso haver. ele morre na cadeia por maus tratos.
era assim a pena de morte.
adormecida nos calabouços, com acordares repentinos e horríveis.
saí da prisão e estou numa tenda a escrever
"the man falled in the pit of Life" algo assim. Com uma lapiseira que estava no bolso do peito do homem que ia morrendo, amarrado ao fundo de um corrimão de madeira esculpida, ao fundo da escadaria dos calabouços da prisão.

havia uma ida ao cinema.
marcada com a minha mãe e irmã.
alguém comprava bilhetes com dias de antecedência.
ao chegar ao gigantesco centro comercial fomos jantar.
fomos então para a sala de cinema, nos confins dos últimos andares.
estava cansado. centenas de milhares de pessoas.
chão colorido alcatifado. luzes. parecia um espectaculo da broadway.
luzes, cores. uma azafama de gente normalizada. risos, choros, conversas. conversas de família, de amigos e de namorados, entre amigas.
perco-me da minha mãe e irmã. ah a minha sobrinha também vai. é bem mais nova do que é na actualidade.
reparo que as vejo à entrada da monstruosa sala de cinema.
são várias salas. é um centro comercial.
escadas rolantes até ao céu.
torre de babel.
alguém me passou o meu bilhete para as mãos. antes.
filas de gente para entrar.
eu vou aos wc's.
entro na primeira porta de acesso aos wc's
um imenso corredor curvo segue para a direita e esquerda.
em frente diz "wc crianças meninas".
as paredes e portas em frente à porta por onde entrei são em metal fosco, mas brilhante. o resto do chão é tijoleira escura... parece que há uma gradação de um espaço no outro... o espaço dos corredores do cinema, para o dos corredores dos wc's...
do "wc das crianças meninas" sai alguém, um homem com um ar super natural. e logo entra outro. não, não se trata de pedofília ou cena prevertida de wc de centro comercial.
é muita gente a ir às casas-de-banho e as crianças vão acompanhadas dos pais, mas são raras estas situações, e então os adultos aproveitam o acesso mais rápido a estes wc's.
mas eu penso para mim "não vou a estas casas de banho... se entra alguém vou ficar mal visto, vai parecer mal para a criança. não vou querer confundir ninguém. as casas de banho são para os miúdos. preciso respeitar os seus espaços. é importante que eu respeite os seus espaços." e os espaços são sagrados para mim, sobretudo não sendo "meus".
as portas têm daquelas janelas redondas. e não passa luz por elas.
continuo para a esquerda e uns bons largos passos mais à frente são as casas de banho para crianças meninos. sem actividade por serem demasiado longe.
regresso para trás. subo umas escadas.
em frente são os wc's para adultos: senhores. não se entrava para um compartimento fechado.
era o que procurava.
urinois urinados. à altura da minha cabeça... estava um homem a urinar enquanto subia as escadas. acabou. só podia ser gigante para poder urinar àquela altura.
urinois à esquerda e um fileira de lavatórios separava e deva privacidade a quem urinasse. o corredor da casa de banho seguia do lado direito do corredor das casas de banho.
acabei por não urinar... perdi a vontade... não que o aspecto fosse nojento. não. tudo estava aparente limpo. mas o aluminio notava-se manchado e molhado de urina.
não cheirava mal. pois o chão era sempre limpo. havia também aromatizadores de espaço. mas o espaço não cheirava a nada.
segui para a minha sala de cinema

corredores longos deviam levar-me à maior sala de cinema do mundo.
os gongos de entrada já tinham dado há uns minutos.
estou sozinho pelos corredores.
dou um salto e na queda começo a voar.
rapidamente percorro metros e metros de corredor em tons rosa e outras cores calmas...
todo o cinema tem cores preduminantemente rosa. parece um jardim de calmaria aparente.
cheira obviamente a pipocas e cola de alcatifa...
e tudo tem sempre aparência de novo. sem o ser. há um desgaste dos materiais que é controlado sem saber como é.
eu por certo não vou desgastar nada.
voo suave pelos corredores.
diverte-me este voo.
sinto-me mto bem.
rodopio.
é como se estivesse nos braços de uma mulher. a fazer amor. sentados um sobre o outro. frente a frente. pernas abertas. encaixados. olhos-nos-olhos. as mãos passam pelas costas. abraçam-se. beijam-se. aproximam-se. eu e esta mulher incógnita. bonita, suave, cabelo loiro semi ondulado natural.
gozam suave pelos corredores.

chego perto da minha sala.
é um átrio especial de acesso à sala.
tenho q descer umas escadas.
à direita e à esquerda. há escadas.
ao centro uma estranha escultura em fibra de vidro e um orifício em elipse... parece uma vulva.
proibidíssimo passa por ali, mas eu ouso e acedo ao piso inferior por aí mesmo.
desço em voo. agarrando-me às paredes da vulva. desço em elegância.
entro de cabeça. coloco as mãos à frente para me agarrar. dou uma cabalhota. um pé primeiro toca no chão, o outro a seguir. liberto uma mão da vulva, em seguida liberto a outra.
as meninas das portas da sala reparam e dizem-me que não posso fazer aquilo.
sorrio e peço desculpa pela minha ousadia.
empatizam comigo. é pela simpatia e carinho imposto nas minhas palavras.
uma delas entra na sala.
a outra aguarda que eu me chegue perto dela para entrarmos na sala.
as portas largas.
o filme já começou há algum tempo.
sobe-se uma rampa de acesso à sala.
a menina segue à minha frente.
o meu andar é tão leve que os meus pés levantam voo novamente.
fico planar no ar.
a menina olha para mim e olha rapidamente para a frente como que embaraçada.
mas eu mantenho-me a pairar.
quando chegamos ao fim da rampa ela volta a olhar e sussurra "baixa! desce! pára com isso", num tom doce, candido até, tocando-me nos pés para me fazer acentar os pés no chão.
a mulher que me diz isto é uma loira; cabelo semi-ondulado... pele esbranquiçada... rosto esguio elegante. linda mulher. formas femininas.

a sala é assombrosa.
cadeirões com estofos em couro.
estamos bem cá em cima.
deve ter 10.000 lugares.
tem plataformas vip em colunas de madeira. avisto a minha irmã, sobrinha e a minha mãe.
estão nuns lugares horríveis.
o filme já tinha começado há muito.
era algo que eu já tinha visto. um bom filme.
ficava lá mesmo em baixo. a sala gigante. um pé direito aberrante.
como os lugares não estavam todos ocupados estava na hora das pessoas se movimentarem para arranjarem lugares melhores.
eu falei para elas se dirigirem para sitios melhores.
a minha irmã tinha uma coluna das tais plataformas vips bem à frente dela. era chamado o lugar morto. eu digo-lhe "vai para outro sítio que daí não vais ver nada"
elas separam-se, mas sinto que não há problema neste afastamento.
eu vou procurar o meu lugar.
há muitas pessoas a venderem coisas pelos corredores.
parece uma feira. melhor um circo autentico

encontro vários possíveis.
um ao lado de um casal com uma menina que não deve ter mais do que 5 anos.
o pai ao lado da filha. a mãe no lugar atrás. pergunto se o lugar ao lado da filha está disponível ao que me respondem: "não, não está. escolha outro." ficaram com medo que fizesse mal à menina.
outros por ali, mais abaixo estavam livres.
mas não me satisfaziam.
desci uma escadaria enorme.
uma outra menina da sala diz-me para descer bem lá para baixo.
entro numa fila central e sento ao dentro de um cadillac aplicado a meio da sala.
as cadeiras aqui são todas almofadadas. já não são em couro.
mas curiosamente, os melhores lugares de uma sala são estes mais centrais. vulgarizou-se q os melhores são os últimos...
patetice.
sentei-me ao lado de um bebé.
meti o cinto de segurança e fiquei ali com o menino.
estava sozinho. estranhamente sozinho.
alguém o vigiava na fila anterior.
comecei numa conversa infantil com o bebé. nada de mais.
o carro a dada altura começa a mexer-se.
eu faço mais piroetas.
e o carro fica em desiquilibrio.
reparo que a proxima fila de lugares fica a uma distância enorme.
e abaixo do cadillac ficam sucalcos de uma especie de terrenos baldios da sala gigante.
subitamente o cadillac começa a cair.
só me lembro do bebé.
começamos a cair e eu tento controlar o embate.
a sensação é terrível.
o primeiro sucalco fica longe. é uma altura tenebrosa.
o chão chega devagar e o embate é pesado.
o carro não se desfaz e seguimos para o sucalco seguinte. arrebentamos umas estranhas barreiras de segurança.
descemos pela sala abaixo.
arrebentamos com lugares vazios. cadeirões de sala de cinema saltam à nossa frente.
o bebé ri e diverte-se.
eu estou com medo.
ao descer o medo desaparece por causa do riso do bebé.
chegamos até à tela de projecção.
e prosseguimos.
esticamos a tela. a imagem nela projecta vai-se deformando.
eu olho para trás e a colossal sala de cinema olha para a tela com medo e paixão expressos nas faces.
estamos vivos.
a tela estica. estica. estica.
a imagem deforma cada vez mais.
um estouro enorme desfaz a tela.
e entramos numa sala escura.
mas o que fica além da tela?
o carro parece vivo. e a nossa queda é livre.
arrebentamos com a parede do fundo.
estranhamente caímos no meio de filas de cadeiras.
olho para o bebé para ver como ele está.
bem. está bem.
olho para a frente. e afinal o que estava em queda era a sala de cinema dentro do avião que nos transportava...
o avião caía.
batemos no chão.
agora era o impacto.
já tinha saído do cadillac e estava de pé na fila de cadeiras.
o embate do avião no chão faz-me bater com as costas sobre as costas almofadadas do cadeirão.
mas este era o primeiro embate.
milhares de filas de cadeiras com pessoas estavam a sofrer o embate.
agora iamos todos sofre o embate das cadeiras em queda.
pego no bebé e encosto-o no meu peito. ele enrosca-se.
eu sei que se não subir para cima da cadeira à minha frente ficarei com as pernas amputadas.
subimos para a cadeira.
aguardamos o 2º embate.
um mar de cadeiras ordenadas desce...
confio que o embate vai ser amortecido por uma enorme parede almofadada.
tudo é esmagado contra esta parede. eu só penso quando é que chega o limite de contenção da espuma.
sinto o peso das cadeiras e sussurrando digo ao bebé: "vai ficar tudo bem. vai ficar tudo bem. vai ficar tudo bem"
o bebé relaxa no meu colo. é uma sensação de conforto mutúo.
não há dor, apesar da destruição.
de repente o caos pára.
inspectores rapidamente entram no avião e tiram-me uma lapiseira da mão: "nós ficamos com isto. obrigado"
eu viro-me e digo que temos que repetir toda a cena de novo pois não pode ser assim...

estou no cadillac com o bebé.
depois da queda as cadeiras vão fazer o 2º embate.
o bebé ao meu colo está nervoso.
estou com medo de perder o bebé ali no meio das cadeiras e de toda a confusão.
começamos a ser esmagados contra a parede almofadada.
alguma dor aparece desta vez.
mas sei que o bebé está protegido comigo.
ele está bem.
vestido apenas com fralda.
está nervoso e aquecido pelo meu calor.
o caótico embate amortece finalmente.
os inspectores entram e tiram-me a caneta do bolso da camisa.
e eu berro: "não pode ser assim. já disse que não pode ser assim porque essa caneta era do meu pai..."

a vida volta ao normal.
volto várias vezes ao lugar onde o avião caiu.
faço a minha vida normal.
vou dar aulas.
volto ao lugar onde caiu o avião.
de uma das vezes volto com a minha madrinha.
aproximo-me de uma superfície de madeira.
uns tubos de secção quadrada, pintados de vermelho, apontados para o ar... na extremidade uma rodas de borracha...
deviam ser uns carrinhos ou prateleiras de transporte, que o avião levava, e estavam ali empilhadas umas nas outras, superfície com superfície.
algo aconteceu porque me deu uma vontade louca de chorar.
deito meio corpo sobre uma das prateleiras e começo a soltar um gemido ensordecedor que se vai misturando com o som do rasgar de um avião a jacto a entrar na atmosfera.
o som vem de dentro de mim.
não passa nenhum avião.
é ensordecedor.
e a potência do som faz levantar um vento fortíssimo.
como se eu tivesse engolido uma turbina de uma avião.
a minha madrinha tranquila, no meio daquela ventania: "não sei porque não deixas soltar o choro".
banho-me em lágrimas.
é um rio de lágrimas a ensoparem-me a cara e a tal superfície de madeira gasta.

vou acordando a gemer de igual forma que no sonho.
só que sem chorar
o gemido traduz-se dpois numa respiração ofegande e, consquentemente num roncar ensordecedor.
sinto os meus braços torcidos entre eles.
e o meu corpo sobre os meus braços a prendê-los.
rebolo-me para a direita. abro os braços. acalmo. e sinto o conforto do bebé ainda no meu peito.
recordo-me lentamente de tudo.
ouço os melros lá de fora. e na escuridão por estar com os olhos fechados aparecem jardins.

devagar, preparo-me para escrever este sonho...

domingo, 29 de junho de 2008

emptiness part 3

estes últimos dias têm sido plenos de coisas novas e boas.
pleno? momentos plenos no vazio?
quando o vazio começa a encher é bonito de o sentir a encher.
só esvaziado se valoriza o que vai nascendo. ou re-nascendo...

poder estar com alguém, inteiro...
é um privilégio que não acontece todos os dias. não acontece mesmo todos os dias.
estive com a Luz ontem.
sem o tempo.
a Luz este sempre presente, connosco.

fecho os olhos devagar a saborear as imagens que gravei dos momentos.

aos poucos ia reparando como ela é de uma beleza explosiva.

ela tem-me ensinado coisas muito importantes.
chego-me a assustar com este tempo que tenho aprendido a viver.
com calma. com tempo. aprender a ter tempo, a deixar o tempo fluir. a alargar o tempo.
sinto-me nas suas mãos como se tivesse a flutuar em água que posso beber.
dou alguns goles. embora a minha sede seja terrível, eu aprendo a beber com tempo.

sim, deixo-me ir nestas águas profundas. flutuando com paixão, ousadia, risco.
ela ensina e permite-me flutuar. ela abre espaço para eu mergulhar. para eu me assustar. para eu me agarrar com o medo,... e depois soltar. é isto que sinto.
não tenho medo de sentir tudo isto, mas tenho medo do escuro. tenho medo do que não conheço.
flutuar sob estas águas profundas assusta profundamente.
não se conhece o amanhã. é por isto!

e quando a ansiedade abate sobre mim...
ansiedade por querer mais. por querer ser arrebatado. por querer beijar mais. ansiedade por encher-me por completo. ansiedade por amar e provar que posso amar. ansiedade por explodir-me. ansiedade por me sentir pleno, homem completo, homem eficaz. ansiedade por encher de prazer, por ser desejado. por ser preciso. por ser único. por viver na sua vida. ansiedade por construir, por estar presente. por arquitectar. por participar. ansioso por ser seu parceiro. cúmplice. ansiedade por atingir essa parceria. ansioso por eliminar idealizações e expectativas.

tantas ansiedade.
tantos medos.
quando é que isto vai mudar?
parece que não cresço.
parece que não vivo.

e é por isto, talvez, que o homem não tenha terra...
o homem percorre a pradaria. solitário.
prospectando por algum filão de terra fértil.

sem cavalo.
apenas a sua roupa gasta. as suas botas sujas.
são as únicas armaduras contra o pó e o tempo.
tecidos vulgares apenas.
e um resistente par de botas que o seguram a cada passo nessa terra quente e grosseira.

essa terra quente e grosseira não é infértil. não. não é não.
apenas não é a terra certa.

foi um privilégio enorme.
é um privilégio enorme.
sei que vais achar exagero.
digo isto consciente e tranquilo porque sei a diferença entre estar com quem se gosta ou estar com quem se precisa.
e é por estar a gostar que sinto que é um privilégio este contacto.
ensinas-me.
por isso, ensina-me mais.
sei que pode doer.
sei que já doeu.
sei que estou a aprender a ser maior.

apetece-me falar mais coisas que sinto.
mas seriam coisas de um apaixonado meloso e isso eu já vivi antes e resultou numa diluição do mel na água. coisa sem sabor.
por isso em vez de me desfazer na água vou procurar ser mais consistente e consequente.
mais forte.
vou procurar mergulhar mais fundo.

a terra não é vazia.
é vasta.
é preciso andar muito sobre ela.
tal como é preciso flutuar nas águas profundas quando se encontram águas profundas.

ando devagar nesta terra árida.
flutuo suavemente nessas águas límpidas.

gosto muito de tudo isto.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

emptiness part 2

voltei.
algo se passa.

fechei a luz e deitei-me a pensar no dia de hoje.
reparei que tenho vivido vários baldes de água fria.
bom, vários não. alguns apenas. mas cada balde destes não tem só água fria não.
é um balde de ensinamento.
ensinam-me a ser mais consistente, a ser mais certeiro, a ser mais assumido no que quero.

quero mulher. quero copular. quero esvaziar-me da minha energia sexual. quero tocar. quero abraçar. quero envolver o meu corpo no outro.
e tudo isto, só assim é visto de forma grosseira, pois dizem que não há amor neste querer.

a minha mão direita sinto-a suave.
a minha mão esquerda sinto-a perplexa, triste, estranhamente vazia para falar.
quase... sem sentimento. quase... paralisada. perplexa pelas recusas. perplexa por se ver desejada.
a minha mão direita sinto-a livre de qualquer olhar. como se absorve-se cada segundo que vive com prazer. e compaixão.

deitei-me a pensar o que poderia fazer a esta hora.
a quem podia ligar para poder tocar.
a quem me podia apresentar.

ninguém vivo.

então saí dessa ideia e procurei criar.
desviar o meu desejo para a criação.
mas sinto o meu corpo todo pulsante.
e estou longe do local de criação.

sem chance.
fico nesta bolha de silêncio.
aguardo que amanheça.
que o cansaço e o sono se deitem comigo.
que o pensamento se esvazie também.
e que o corpo encontre uma frequência mais baixa.

ouço o sangue a pulsar no meu tímpano.
sinto-me dentro de um balão de borracha.
todo o som parece plastificado.
é uma cadência certa, mas plástica.
sinto todo o coração. o meu corpo como um coração.

um corte que faça é como uma artéria rasgada a esvair-se em sangue.

preciso de uma mulher. quero copular. quero toca-la. quero senti-la.
mas tudo isto parece ser visto como algo grotesco, pobre, sem amor.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

emptyness part1

explica-me porque novamente me sinto inútil.
consegues explicar esta sensação de vazio?
onde parece que nada cria raíz.
este é o homem sem terra alguma.
é um homem que vaguei por todos os espaços sem deixar marca.
é um homem trágico.

explicas-me porque é que me sinto perdido?

hoje saí de casa com uma raiva terrível.
contra ti, contra todos.
na verdade contra mim mesmo.
sem entender porque motivo não consigo realizar-me.

não dormi.
levantei-me irado com a minha vida.
levantei-me.
tomei um banho rápido.
arrumei a louça do fim de semana.
desfiz a cama para deixar a sala arrumada.
tudo como se estivesse atrasado...
...atrasado para marcar.

...dizes-me porque vagueio por aqui à procura nem sei bem do quê?

...

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Amar e Destruir

PARTE 1
parece que vivo obcecado por encontrar gente e mais gente.
e tenho encontrado pessoas de uma Luz celestial.
mas, ao mesmo tempo parece que a minha natureza tende não só para o autismo mas, também para amar e destruir.

PARTE 2
ao fim de muito tempo tenho-me apercebido de muitas coisas.
hoje o meu coração foi esfaqueado.
parece uma coisa de assalto por um punhado de euros...

tenho reparado que me refugio muitas vezes pelo medo que tenho em percorrer esta estrada.
é a maior a estrada da vida. é a maior estrada que alguma vez nós pudemos conhecer.
sim, já sei da lamechice que está a parecer. mas, parece também que hoje temos vergonha em encarar certas coisas de frente.

ontem eu dizia que tinha vergonha de usar a palavra romântico, quando alguém estava a ser romântico comigo.
assim como tenho medo de usar a palavra apaixonado quando estou apaixonado por alguém.
tenho medo, tenho vergonha.

tenho medo e tenho vergonha.

e são estes dois estados que me ensinaram a destruir.
fujo insanamente do que tanto desejo.
assim que me apaixono e conquisto viro louco barão a espoliar a cidade.
é literal.

construir e destruir.
e se possível evitar deixar marca.
mas, na verdade, isto é impossível.

porque tenho medo de me entregar, também tenho vergonha de me apaixonar. e vice-versa.
só que curiosamente, eu apaixono-me diariamente.
e não estou a ser lírico, não.
só que nesta rotina quase industrializada em que eu próprio me deixei cair eu levanto subitamente as lanças.

ao fim de algum tempo entendi uma coisa bem interessante:
todos nós, aqui da terra somos uma peça de um puzzle qualquer. mas não somos uma peça que só encaixa apenas com determinadas peças de um puzzle maior. não. a complexidade é verdadeiramente mais bonita do que um puzzle chato e interminável.
cada peça, cada um de nós, pode encaixar com qualquer outra peça. apenas porque somos matéria adaptável. podemos se quisermos.
não é que não haja compatibilidade. porque há!
somos TODOS compatíveis.
precisamos apenas de nos entregarmos. e é muitas vezes isso que nós não queremos!
eu sei porque esfaqueei vários corações que se entregaram e eu nem precisei de os conquistar.
apenas de os desejar, só tive que os desejar... e esfaqueei-os.

peguei nestes corações, ali bem directo no peito.
não os arranquei.
segurei-os.
e esfaqueei-os sem qualquer emoção.
retalhei-os.
e assim ficaram a esvaziarem-se, a sofrer.
e assim fiquei eu a ver a mirrarem.

é horrível ver isto.
é horrível sair do meu corpo e ver esta monstruosidade a acontecer.

mas... ao fim das contas eu não sou diferente dos outros, inclusive dos corações destuídos.
não sou mesmo.
parece apenas que sou mas não sou.
parece porque sou eu que estou a expor-me.
mas, em algum momento, os portadores destes corações esfaquearam outros.
pois é bem verdade que quando se ama e se destrói não há vítimas nem carrascos, porque não há quem ame ou seja amado - as coisas a existirem, existem mutuamente. ou seja, hoje amamos mais o outro, amanhã amaremos menos, e vice-versa. e mais, se alguém nos fere é porque permitimos. e muitas das vezes que dizemos estar feridos, o carrasco é o próprio.
bom, é a tal da parceria.
e por isso digo que não sou alguém especial na sua monstruosidade.
não, para esse peditório eu já dei.

outra coisa que reparei nos últimos tempos, além desta coisa que somos todos uma espécie de puzzle de peças vivas e flexíveis, é então esta coisa do fugir de amar e outra ainda é o vaguear por paradoxos, ambiguidades, indecisões, todas convenientes.
não saber o que não quero.
não querer saber o que quero
deixar-me na indefinição faz parte do meu jogo de conveniência para comigo mesmo mas, que no fim sou eu que saio a perder.
não se vive rigorosamente nada.
dizem-se coisas que não correspondem à verdade só porque naquela altura é o que a outra pessoa quer ouvir.
usa-se e abusa-se da sedução.
e do lado tímido sedutor.

mas um dia, por estar cansado de uma vida farsante, metidos dentro de uma armadura, sem sentido. cansado de viver apenas nas fantasias, ou de viver apenas alguns segundos de horas completas. cansado de ir só para conquistar. cansado de amar a metade. e sobretudo cansado de destruir...
decide-se por sair da armadura.
ir em frente.
ir todo.
jogar com o outro.

nestes últimos dias fui uma pessoa muito bem disposta porque amei e fui amado.
mas, ainda mais do que isso: porque me predispus a entregar-me. a arriscar. a viver.
sem vontade de conquistar e destruir.

hoje esfaquearam-me o coração quando me disseram que afinal ainda não é a altura.
mas eu aprendi coisas:
na verdade fui eu que abri o peito.
fui eu que deixei jogar com o meu coração sobre um tapete de facas!
e sei que o meu coração retalhado vai ser cosido por mim e ficará bom novamente.

amar e destruir não é coisa que queira voltar a viver de novo.
eu sei que é fácil essa estrada.
mas eu quero aprender a amar como eu sou: de peito aberto.

dizerem-nos que afinal não vai dar.
que há coisas do passado que ainda estão por resolver.
...
bom,... levar o tal do corte...
eu fiquei foi com vontade de ir à luta.
mas,... será que é o q faço melhor?...
deixo rolar.
...

PARTE 3
mas estou bem triste.
triste pela recusa
e triste por me sentir novamente desamparado.
entregue a mim mesmo...
pensei eu que estava a construir algo de muito bonito...

na verdade, construí.
e construí mesmo.
não deito nada fora do que vivi nos últimos dias.
ai isto é que não vou destruir.

mas, estou bem triste por me ver novamente no espaço sideral...
de cordão umbilical cortado.
a vaguear novamente nú...

entrei no silêncio que me pediu.
e isto eu sei fazer.
mas,...
sempre dói. por mais que não se queira.
mas eu aceito o amor dela assim mesmo.
sempre aceitei este amor assim.
...

PARTE 4
confesso já que suspeitava que aquele fosse o conteúdo da mensagem que ia ouvir.
há coisas que não precisam ser faladas pois tornam-se excessivamente horríveis de se ouvir.
eu olhava o céu da noite e dizia para mim mesmo que não valia a pena entrar naquele rio de ansiedade enquanto não soubesse ao certo aquilo que eu já sabia e que não queria saber.

eu tinha que registar este evento.
porque para mim não me tiraram o tapete debaixo dos pés.
mas a dureza dos factos faz-me ver que é realmente importante saber saborear os bons momentos. é realmente importante ver como se devem valorizar as coisas boas que nos acontecem mesmo que seja por um segundo de vida.

eu entendo a situação.
eu concordo com a proposta.
não posso criar pressão, não posso criar chantagem emocional, não posso vitimizar-me. terei que colocar-me à parte, frente à sua opção.
mas dá-me vontade lhe perguntar: mas, então as novas experiências que queres são as experiências pelas quais já passaste?
mas como compreendo a tua incerteza!
do fundo do meu coração compreendo-a.
mas fico muito triste mesmo. não dá como não ficar assim. porque vejo que aqui perco alguma coisa muito, mas muito boa mesmo!
não fico nada zangado. como poderia ficar zangado?
mas fico com vontade de te raptar!

PARTE 5
eu vivi obcecado por encontrar gente e mais gente.
agora não tenho como não conhecer pessoas.
agora deixo-me ir por este rio, qual Ofélia apagada da vida.
mas por este rio fora, deitado sobre as suas águas calmas toco em gentes de bem.
não imaginam a quantidade de pessoas Luminosas que se encontra quando relaxamos sobre a água e nos deixamos invadir,... e invadimos com carinho...